Entretanto, a experiência demonstra que, por mais surpreendente que isso possa parecer, não é bem assim.
A maioria dos velhos vê a morte com uma naturalidade incompreensível aos mais jovens. Eles usam a equação amor para dar/amor para receber como critério para decidir se vale a pena, porque têm a convicção de que qualquer esforço ou sofrimento só é justificável se, depois de tudo, houver uma vida prazerosa para desfrutar. E a maturidade médica exige um nível de compreensão e respeito às decisões que envolve, antes de mais nada, a preservação da liberdade de escolha.
Quando anunciei ao Reinoldo que ele tinha um tumor pequeno, sem nenhum sinal de disseminação local ou à distância, e que estava indicada uma cirurgia que ele tinha plenas condições de tolerar porque aos 86 anos não apresentava nenhuma comorbidade importante, eu era uma certeza só.
Ele ouvia tudo com altivez, sem questionar, como quem mantém o comando e quer apenas obter algumas confirmações.
A primeira pergunta foi inquietante: "Que tempo terei se não fizer nada?" Não consegui fugir da resposta: "Mais ou menos uns dois anos".
"Acho que esse tempo é, na verdade, mais do que preciso! Depois que minha amada morreu, há três anos, fiz a bobagem de vender o nosso canto e tenho rodado a cada três meses pelas casas de meus quatro filhos. Nessas 12 mudanças de domicílio, não consegui ignorar o desencanto que provoco em cada chegada e o alívio indisfarçado em cada partida. E não há como negar que eu atrapalho a rotina deles. Cansei, meu doutor. Acho que já é tempo de dar um fim a este rodízio."
Havia gratidão para explicar o abraço de despedida mais prolongado, e consegui dele a promessa de que voltaríamos a conversar. Porém já antecipava a dificuldade de arranjar argumentos para contrapor à crueldade daquela lucidez.
Fiquei com uma desagradável sensação de que se aprendemos a fazer com que nossos velhinhos vivam mais, estamos muito longe de entender que esta conquista só se justifica se dermos utilidade à vida deles. Se não, viver mais para quê?"
Agora, lendo o texto concluo que devo encerrar este ciclo de culpas e entender que ninguém, com 86 anos, sentindo dores físicas e imensas dores na alma como morte de neta e filho, pode desejar permanecer por mais tempo na terra, dependente de ajuda para as mais elementares atividades da vida.
No momento tenho a firme convicção de ter feito o correto. Proporcionei para a mãe nos seus últimos dias, conforto e muito carinho, fazendo todas as suas vontades, enquanto pude estar com ela e, acredito que minha ausência deu a ela a liberdade para partir sem sentir meu sofrimento.

