Eles têm o dinheiro (e o uísque) mas não têm "finesse"
O texto abaixo foi publicado no Jornal Zero Hora de 21 de abril de 2012
"O dólar sobe, o dólar cai, os juros sobem, os juros caem, mas a garrafa de uísque e o balde de gelo continuam sempre a postos - gelo de rico nunca derrete. A economia mundial pode dar piruetas, o Eike pode torrar toda a sua fortuna, mas rico de novela nunca amarrota a fatiota. Está sempre lá, do mesmíssimo jeito, tomando seu café da manhã de rico e subindo suas escadarias de mármore desde os tempos em que Glória Menezes era cocota. Para acompanhar as mudanças no Brasil, é preciso ficar de olho no pobre de novela, este, sim, afetado de forma mais evidente pelas flutuações sociais e econômicas da nação: quando o país vai bem, o pobre de novela vai melhor ainda.
Depois de anos fazendo figuração, enquanto os ricos bebiam uísque e a classe média casava e descasava, a categoria, enfim, tomou conta do horário nobre. As duas principais novelas da Globo, Cheias de Charme e Avenida Brasil, têm empregadas domésticas como protagonistas e música brega como trilha sonora. Em clima de dramalhão, Avenida Brasil mistura bastidores de futebol, kuduro e até o inédito (em novelas) universo dos catadores de lixo para contar uma história de madrasta má e vingança que poderia ter c omo pano de fundo os campos nevados da Rússia. São os detalhes que colorem a trama com o tempero da classe C ascendente tipicamente nacional. A família do craque que ficou milionário, mas que não quis sair do subúrbio, é pobre de novela com banho de loja: eles têm o dinheiro (e o uísque), mas não o "finesse". São gente diferenciada.
É na trama leve e despretensiosa de Cheias de Charme que o pobre de novela está ganhando contornos mais interessantes. Na novela das sete, o retrato da classe C vai além da trilha sonora e do figurino e é a parte central do enredo, não apenas porque as personagens principais são empregadas domésticas, mas porque seus conflitos renderiam um breve tratado de sociologia brasileira. Há as fronteiras embaralhadas entre a casa grande e senzala da menina que não sabe se é da família ou se é empregada, há a dona de casa que batalha para sustentar sozinha a família e o marido encostado (brasileiríssimo...) e há também a patroa sem-noção que joga sopa na cara da empregada - o que rendeu uma cena de julgamento de ação trabalhista que deve ter sido a primeira do gênero na teledramaturgia brasileira.
Nos Estados Unidos, a televisão ficou tão boa nos últimos anos, que muita gente tem dito que as coisas mais interessantes estão acontecendo por lá e não mais no cinema. No Brasil, parece ter havido o fenômeno contrário: quanto mais o cinema brasileiro superava a desconfiança do público, mais as telenovelas, gênero brasileiro por excelência, ficavam parecidas entre si e repetitivas.
O trunfo na moderna telenovela brasileira, aquela que nasceu com Beto Rockfeller no final dos anos 60, sempre foi a habilidade de fazer o país se reconhecer na TV - mesmo que com narizes mais fininhos e pele mais clara. A alegre e consumista nova classe C, que salvou o Brasil da crise, pode também estar salvando as novelas brasileiras da mesmice e da perda de audiência. Mas isso a gente só vai descobrir nos próximos capítulos.
